São uma congregação que tem religiosas em Portugal e no Haiti. Em Lisboa, no Casal Ventoso, as irmãs partilham a dor das religiosas que estão em Port-au-Prince. Na Semana do Consagrado, saiba quem são e como vivem as Irmãs de São José de Cluny.
São campos de missão distintos. Port-au-Prince, no Haiti, e o Casal Ventoso, em Lisboa, são dois dos locais onde as Irmãs de São José de Cluny realizam a sua missão: anunciar Cristo, ajudando quem mais precisa.
A internet encurta distâncias. Através de e-mails, as religiosas portuguesas têm tido informações quase diárias sobre o drama que as irmãs no Haiti estão a viver após o sismo de 12 de Janeiro. “Graças a Deus, ninguém das comunidades morreu. Tivemos apenas três irmãs feridas porque ficaram debaixo dos escombros”, conta a irmã Maria dos Prazeres Cardoso, superiora da comunidade no Casal Ventoso.
A congregação das Irmãs de São José de Cluny está presente no Haiti com 15 comunidades, sete das quais na capital Port-au-Prince. Instalada desde 1864, a congregação dedica-se à educação (50 escolas públicas femininas são dirigidas pelas Irmãs de São José de Cluny), à catequese e aos serviços sociais. Em Portugal, a muitos quilómetros de distância, as irmãs pedem donativos (ver cabeçalho na página 3) para ajudar as vítimas do sismo. “Toda a congregação, no mundo inteiro, está a trabalhar para fazer chegar os donativos ao Haiti. Sabemos que as nossas irmãs no Haiti têm visto diariamente expressões de fé e nós queremos também ajudá-las”, garante a irmã Prazeres.
Estar onde houver bem a fazer e sofrimento a aliviar
A irmã Maria dos Prazeres Cardoso é a superiora da Comunidade Ana Maria Javouhey, que está presente na Quinta do Loureiro, no Casal Ventoso, e que conta com três religiosas. Além da irmã Prazeres, realizam a sua missão neste bairro de exclusão a irmã Lúcia, de 87 anos, e a irmã Teresa, uma enfermeira.
As Irmãs de São José de Cluny são uma congregação cujo carisma é a entrega a Deus para a construção dum mundo mais solidário e justo. Procurando a cada dia cumprir os desígnios da fundadora, Ana Maria Javouhey, as irmãs “querem estar em toda a parte onde houver bem a fazer e sofrimento a aliviar”.
A chegada das irmãs ao Casal Ventoso teve intervenção camarária, em consonância com o Patriarcado de Lisboa. “Em 2001, foi criada a Comunidade Ana Maria Javouhey, a mais recente das cinco que estão na diocese de Lisboa, por especial pedido do então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, João Soares, que mesmo sendo ateu disse querer as irmãs no bairro do Casal Ventoso para serem presença de Deus”, conta a superiora da comunidade, que chegou ao Casal Ventoso em 2004, depois de realizar missões em Torres Novas, Coimbra, Madeira, Arronches (Portalegre) e Gafanha (Aveiro).
Num campo de missão como o Casal Ventoso, considerado um bairro de exclusão social, que objectivos presidem à missão destas religiosas? A irmã Prazeres deixa a resposta: “Anunciar a boa nova de Jesus Cristo, deixarmo-nos interpelar pela realidade que nos rodeia, sermos solidárias com o povo que nos é confiado, irmos ao encontro dos mais necessitados numa atitude de abertura e compreensão, darmos com alegria e desinteressadamente o nosso tempo, trabalho e saber, despertar para a fé e vivência cristã”.
Situada no espaço da paróquia de Santo Condestável, a comunidade acompanha o centro de dia e o lar que estão a cargo da paróquia. As irmãs animam também a Eucaristia na capela do bairro, a Capela de Nossa Senhora de Fátima. As noites de quintas-feiras são dedicadas à Bíblia. Para isso, as irmãs contam com um grupo bíblico, onde são lidos, meditados e partilhados os Evangelhos de domingo.
Histórias de vida marcam religiosas
As visitas fazem também parte da missão diária das religiosas. “As pessoas do bairro são muito sensíveis às nossas visitas. Há dias fui visitar um homem ao hospital e ele ficou tão sensibilizado com o nosso gesto…”, conta a irmã Prazeres. Ao contrário do que se possa pensar, as pessoas cuidam das suas casas com muito carinho. “Eu entro em muitas casas e as pessoas têm sempre tudo muito limpo. Vê-se que têm gosto nas suas casas…”
A alfabetização também não é esquecida: “Sem serem aulas propriamente ditas, ajudamos as pessoas a escrever cartas aos familiares e assim elas vão apreendendo a escrever”. Esta alfabetização no Casal Ventoso traz também histórias de vida que marcam as irmãs. “Esta gente tem direito a aprender… pelo menos a aprender o número dos autocarros”, diz, revoltada, esta religiosa. A irmã Prazeres partilha então a história de uma rapariga que entretanto aprendeu a escrever. “O ano passado, uma rapariga aqui do bairro, ao chegar à aula de alfabetização disse-me: ‘Oh irmã, estou a pensar ir à Loja do Cidadão dizer que perdi o meu Bilhete de Identidade para fazer um novo porque agora já sei assinar!’”, conta a irmã Prazeres, salientando que “mostrar uma identificação que diz ‘Não sabe assinar’ é humilhante”.
Diz que esta gente deve ser “estimada e apoiada”, porque “há aqui gente muito válida”. O pior, segundo a superiora da comunidade no Casal Ventoso, “é que há muitas pessoas que gostam de apontar o dedo a esta gente, mas não as ajuda!”
‘Se as irmãs não estivessem aqui, o Casal Ventosos seria muito pior’
Presentes no Casal Ventoso há quase nove anos, as Irmãs de São José de Cluny dizem nunca ter sentido medo. Mas há muita gente que gosta de as alertar para os eventuais riscos. “Muitas vezes estou a varrer à frente da capela e vêm pessoas cumprimentar-me… mas há outras que ao ver que me relaciono com toda a gente dizem-me: ‘Oh irmã, tenha cuidado… olhe que eles são drogados’. Eu limito-me a dizer que para mim são pessoas. E basta serem pessoas para serem importantes”, assegura a irmã Maria dos Prazeres, sublinhando que se dá bem com “toda a gente do Casal Ventoso”: “Estamos disponíveis para todos! As pessoas do bairro sabem que nós estamos disponíveis para elas”.
Questionada sobre se Cristo vive num bairro de exclusão, a resposta da irmã Prazeres é pronta: “De certeza absoluta que Ele está aqui! Eu vejo pessoas do Casal Ventoso que se calhar têm mais fé do que eu…”
As dúvidas sobre a missão realizada no bairro do Casal Ventoso também surgem. “Às vezes penso para mim mesma: ‘Meu Deus, o que é que estamos aqui a fazer?’”. Segundo a irmã Prazeres, estas incertezas são desde logo afastadas pelo carinho das pessoas. “Há muita gente que nos diz: ‘Se as irmãs não estivessem aqui, o Casal Ventoso seria muito pior… hoje em dia houve-se dizer tanta coisa de muitos bairros, mas do Casal Ventoso já não se houve dizer nada!’ Esta é a nossa alegria”, garante.
Sobre novos projectos e desafios que se colocam à congregação, a irmã Prazeres diz que gostava de realizar uma Missão no bairro: “Já falei com o padre José Filipe, pároco de Santo Condestável, para haver aqui uma semana de missão, para contactar com as pessoas, para anunciar Jesus Cristo! Poderíamos recorrer a outras congregações e fazer uma semana de missão evangelizadora no Casal Ventoso”.
Informação complementar:
Presença em Lisboa das Irmãs de São José de Cluny
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Comunidade
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Fundação
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Religiosas
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Casa das Irmãs (Nazaré)
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1935
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3
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Centro Social Paroquial de São Sebastião da Pedreira (Lisboa)
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1931
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7
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Centro de Bem-Estar Infantil (Alcobaça)
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1973
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6
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Centro Social do Menino-Deus (Lisboa)
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1946
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10
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Comunidade Ana Maria Javouhey (Casal Ventoso, Lisboa)
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2001
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3
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“Vida consagrada, solidária na esperança”
Pela primeira vez, foi celebrada a Semana do Consagrado, de 31 de Janeiro a 7 de Fevereiro, com o tema “Vida consagrada, solidária na esperança”. Para a irmã Prazeres, “em toda a vida religiosa, a esperança tem de estar sempre presente”. Salientando que para si “todas as semanas são do consagrado”, esta religiosa fala dos desafios colocados aos consagrados: “Nós temos que ter esperança! Padres, religiosos ou leigos sem esperança o que vão dar aos outros?”.
Cristãos convidados a participar nas Catequeses Quaresmais na Sé
A Igreja inicia na próxima semana a Quaresma, o tempo litúrgico de preparação para a Páscoa. “A Quaresma é tempo de conversão, de meditação e de reflexão. É sobretudo um caminhar para a Páscoa”, diz a irmã Prazeres, que convida todos os cristãos a participarem ou a estarem atentos às Catequeses Quaresmais do Cardeal-Patriarca de Lisboa: “Vai ser uma grande ajuda! Oxalá muita gente possa aproveitar essas catequeses do nosso pastor”.
As Catequeses Quaresmais de D. José Policarpo, refira-se, decorrem ao longo de cada um dos seis domingos da Quaresma, na Sé Patriarcal de Lisboa, a partir das 18 horas.
Irmãs de São José de Cluny na internet: http://sjclunyportugal.com